Jornal O Globo - Tragédio silenciosa - parte 1

Mapeamento feito por satélite lança alerta para o fenômeno da desertificação, que já atinge uma área de 230 mil km² no Nordeste

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TERÇA-FEIRA 9.7.2013

O GLOBO AMANHÃ

TRAGÉDIA

SILENCIOSA

Mapeamento feito por satélite lança alerta para o fenômeno da
desertificação, que já atinge uma área de 230 mil km² no Nordeste

CLEIDE CARVALHO
cleide.carvalho@sp.oglobo.com.br

C

omo se não bastasse a falta de chuvas, o Brasil vê se alastrar no Nordeste um fenômeno ainda mais
grave: a desidratação do solo a tal
ponto que, em última instância,
pode torná-lo imprestável. Um novo mapeamento feito por satélite pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de
Alagoas (Lapis), que cruzou dados de presença de vegetação com índices de precipitação
ao longo dos últimos 25 anos, até abril passado, mostra que a região tem hoje 230 mil km²
de terras atingidas de forma grave ou muito
grave pelo fenômeno.
A área degradada ou em alto risco de degradação é maior do que o estado do Ceará.
Hoje, o Ministério do Meio Ambiente reconhece quatro núcleos de desertificação no semiárido brasileiro. Somados, os núcleos de
Irauçuba (CE), Gilbués (PI), Seridó (RN e PB)
e Cabrobó (PE) atingem 18.177 km² e afetam
399 mil pessoas.
Num artigo assinado por cinco pesquisadores do Instituto Nacional do Semiárido (Insa),
do Ministério da Ciência e Tecnologia, são listados seis núcleos, o que aumenta a área em
estado mais avançado de desertificação para
55.236 km², afetando 750 mil brasileiros.
Os dois núcleos identificados pelos pesquisadores do Insa são o do Sertão do São
Francisco, na Bahia, e o do Cariris Velhos, na
Paraíba, estado que tem 54,88% de seu território classificado em alto nível de desertificação.

Trata-se de um prolongamento que une o de até 5 metros de altura. Segundo pesquisanúcleo do Seridó à microrregião de Patos, dores, a área foi abandonada depois da criapassando pela dos Cariris Velhos. Apenas na ção da barragem da hidrelétrica de Itaparica,
microrregião de Patos, 74,99% das terras es- usada para o pastoreio indiscriminado de catão em alto nível de desertificação, segundo prinos e, por fim, desmatada. O solo virou
dados do Programa Estadual de Combate à areia. O rio, que era estreito, ficou largo, e o
Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Se- grande espelho d’água deixou caminho livre
ca da Paraíba.
para o vento.
— A degradação do solo é um processo si— Não existe dúvida de que o processo de
lencioso — afirma Humberto Barbosa, pro- degradação ambiental é grave e continua aufessor do Instituto de Ciências Atmosféricas e mentando — desabafa Aldrin Martin Perez,
coordenador do Lapis, responsável pelo estu- coordenador de pesquisas do Insa. — A podo. — No monitoramento por
pulação aumentou, o consumo
satélite fica evidente que as áre- O PROBLEMA NÃO
aumentou. Há consequências
as onde o solo e a vegetação não É APENAS A FALTA DE
políticas, sociais e ambientais.
respondem mais às chuvas esSe falassem do problema de um
CHUVAS, MAS TAMBÉM banco, todos estariam unidos
tão mais extensas. Em condições normais, a vegetação da A DESIDRATAÇÃO E A
para salvá-lo. Como não é, não
Caatinga brota entre 11 e 15 di- DEGENERAÇÃO DO SOLO estão nem aí.
as depois da chuva. Nestas áreNo Sul do Piauí, onde fica o
as, não importa o quanto chova,
núcleo de Gilbués, são 15 os
a vegetação não responde, não
municípios atingidos. Nos sete
brota mais.
em situação mais grave, segundo dados do
Estão em áreas mapeadas como críticas de governo do estado, a desertificação atinge
desertificação municípios como Petrolina, 45% do território de cada um.
em Pernambuco, que tem mais de 290 mil haEm Gilbués, uma fazenda modelo implanbitantes, e Paulo Afonso, na Bahia, com 108 tada pelo governo do estado conseguiu recumil moradores. Barbosa explica que a deserti- perar o solo e fazer florescer milho. Todos os
ficação é um processo longo e a seca agrava a anos se comemora ali a festa do milho, mas a
situação. Segundo ele, em alguns casos, a si- experiência de recuperação é limitada. Hoje,
tuação é difícil de reverter.
10,95% das terras do Sul do estado apresenNa Bahia, numa extensão de 300 mil km² tam graus variados de desertificação.
no Sertão do São Francisco, os solos já não
Em Alagoas, estudos apontam que 62%
conseguem reter água. Na região de Rodelas, dos municípios apresentam áreas em prono Norte do estado, formou-se, a partir dos cesso de desertificação, sendo os níveis mais
anos 80, o deserto de Surubabel.
graves registrados nos municípios de Ouro
Numa área de 4 km², ergueram-se dunas Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Pal-