Jornal O Globo - Tragédio silenciosa - parte 2

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                    O GLOBO AMANHÃ

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TERÇA-FEIRA 9.7.2013

DIVULGAÇÃO

Aridez. Em Gilbués, no sul do Piauí,
desertificação atinge 45% do território

meira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e
Delmiro Gouveia.
A cobertura florestal do estado é tão baixa
que Francisco Campello, responsável pelo
programa de combate à desertificação do Ministério do Meio Ambiente, chegou a dizer
que, se fosse uma propriedade, Alagoas não
teria os 20% de reserva legal.

Degradação intensa

A seca no Nordeste sempre existiu. O que está
em jogo agora não é só a falta de chuva, mas a
degeneração da terra. O solo frágil exige preservação da vegetação de caatinga e técnicas
de manejo, inclusive de pastoreio.
Mas 30% da energia consumida no Nordeste vem da lenha, e o que queima é a mata
nativa. Segundo relatório do governo do Rio
Grande do Norte, que divide com a Paraíba o
núcleo de desertificação do Seridó, além da
retirada de lenha, a degradação vem do desmate para abrir espaço para agricultura, pecuária, mineração e extração de argila do lei-

to de rios para abastecer a indústria de cerâmica.
Ao comparar estudos de 1982 e 2010, os especialistas chegaram à conclusão que se passaram 28 anos de intensa degradação sem
que a situação se alterasse. A indústria de
cerâmica segue como principal fonte de renda e emprego.
Pelo menos 104 empresas competem pela
argila para fabricar telhas e tijolos. Dos seis
municípios do Núcleo de Desertificação, cinco fazem parte do Polo Ceramista do Seridó e
abrigam 59 empresas do setor.
— O Brasil ainda trata a seca como se fosse
o Zimbábue ou outros países muito pobres da
África — afirma Barbosa. — Isso não é aceitável. Temos pesquisa, técnicas e ferramentas
para evitar que a degradação aconteça. Os
políticos tratam a seca em ciclos de quatro
anos, que é a duração de seus mandatos. Se
nada acontecer, as pessoas dos municípios
atingidos pela desertificação vão migrar para
grandes centros, gerando outros problemas.

Em Gilbués, as crateras abertas no solo, conhecida como voçorocas, compõem uma
paisagem chocante. Mas os locais onde não
surgem fendas na terra expostas são ainda
mais preocupantes.
Ano após ano, as pessoas não percebem
que a vida do solo está se esvaindo. Somente
ao cavar fendas é que se percebe que o solo
está cada vez mais raso e a camada de vida,
que são os 5 cm mais próximos à superfície,
está mais estreita ou quase inexiste.
A perda de fertilidade se alastra também
por parte de Minas Gerais e por áreas do Rio
Grande do Sul, onde há o fenômeno denominado arenização — não é desertificação porque esta pressupõe escassez de chuva e aridez, o que não ocorre por lá.
Em Minas, a área de maior risco envolve 69
mil km² em 59 municípios no Norte, Jequitinhonha e Mucuri. Em documento entregue
ao Ministério do Meio Ambiente, o governo
de Minas calculou em R$ 1,29 bilhão o custo
de projetos de prevenção.