Jornal O Globo - Tragédio silenciosa - parte 3

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TERÇA-FEIRA 9.7.2013

O GLOBO AMANHÃ

TRAGÉDIA
SILENCIOSA
DIVULGAÇÃO

Ajuda. Irauçuba, no Ceará,
teve apoio da União Europeia

— O problema é que os solos estão sendo
compactados — diz Afrânio Righes, ex-chefe
do Centro Regional Sul de Pesquisas Espaciais, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e professor de engenharia ambiental do Centro Universitário Franciscano
(Unifra), em Santa Maria (RS). — O solo já
não age como uma esponja, absorvendo a
chuva. Com o plantio direto, sem aragem da
terra, e o uso de grandes máquinas na lavoura, a água não infiltra, escorre sobre a superfície e se perde. Os impactos da estiagem aumentam, porque há pouca água acumulada
na terra. Por isso, é preciso cavar sulcos na
terra, a cada 10 metros, para forçar a infiltração. Como não existe máquina adequada para isso, os agricultores não o fazem.
Em Minas, vegetação e terra sofrem com
queimadas frequentes, destruição de matas
que protegem nascentes, assoreamento de rios e até irrigação, que capta água em excesso,
comprometendo cursos d'água e causando
salinização do solo.
No Rio Grande do Sul, a ânsia de unir criação de gado e plantio de soja, em busca de lu-

cros maiores, saturou o solo na região de Alegrete, resultando na arenização. Sobrou o
“deserto de São João”.
— O solo não era propício para a soja e a
camada orgânica se foi em pouco tempo —
explica Righes. — Ficou areia pura e, com o
vento, ela não parava de avançar.
A solução encontrada pelos gaúchos para
barrar o deserto surgido nos pampas foi plantar eucalipto no entorno da área, criando
uma cortina de contenção dos ventos.
— A mudança climática tem peso importante nos processos de desertificação — afirma Manuel Otero, representante do Instituto
Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA). — Mudou a sequência e intensidade das chuvas. Há menos água disponível. E mais degradação ambiental significa
mais pobreza.
Para Otero, a boa notícia é que o ciclo vicioso pode ser quebrado. Com apoio da União
Europeia, o instituto levou para o município
de Irauçuba técnicas e ações para impedir
que a desertificação se alastre. O coordenador de Recursos Naturais e Adaptação às Mu-

danças Climáticas do IICA, Gertjan Beekman, afirma que técnicas simples, como barramento da água, já deram resultado no município de Canindé.
— Nascentes que estavam secas oito anos
atrás ressurgiram — comemora Beekman. —
Isso mostra que é possível reverter esse processo.
Na Argentina, 70% a 80% da superfície do
país são vulneráveis à desertificação, principalmente ao Norte. No Brasil, toda a região
do semiárido é considerada área suscetível.
Segundo Perez, do Insa, não existe um único
modelo ou indicador padronizado para determinar a extensão das terras em processo
de desertificação no país.
— Não há no Brasil monitoramento sistêmico, apenas estudos pontuais — diz o pesquisador. — A sensibilização não é algo imediato. É preciso estimular as pessoas a olharem com outro olhar e reconstruir a memória
intergeracional. A própria sede da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos das Secas
fica na Alemanha, onde não há o problema.