Gazeta de Alagoas – Parque tecnológico defasado ameaça 2 mil pesquisas na Ufal
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A6 política
fim de semana, 12 e 13 de junho DE 2021
PARQUE TECNOLÓGICO
DEFASADO AMEAÇA 2 MIL
PESQUISAS NA UFAL
Reitor promete manter universidade aberta, mas admite cortes em
segurança, serviços gerais e pesquisas após orçamento congelado
ARQUIVO GA
ARNALDO FERREIRA
REPÓRTER
Os equipamentos do parque tecnológico e laboratórios com 10 anos e a maioria superados, comprometem
mais de 2 mil pesquisas desenvolvidas na Universidade
Federal de Alagoas (Ufal). Até
na área de TI (tecnologia da
informação) o caos se instala por falta de equipamentos modernos para armazenamento de dados, nobreak,
entre outros. Sem contar a
falta de reagentes, insumos,
manutenção dos laboratórios
e financiamentos de bolsas.
Para chegar até o final do ano,
a Ufal precisa de mais de R$
70 milhões de suplementação
orçamentária.
Se o Brasil estivesse com a
economia equilibrada, o orçamento da Ufal seria de R$ 1
bilhão. No entanto, terá que
manter a expansão dos 102
cursos de graduação, pós-graduação e dos campings com o
orçamento semelhante ao de
2012 por conta das perdas inflacionárias. Os cortes em custeio e no capital somam de
R$ 60 milhões, no orçamento tem menos de R$ 100 milhões. A instituição tem que se
manter com R$ 900 milhões,
porque a suplementação não
é garantida.
CORTES
Nas áreas de Humanas
e de Ciências Sociais cortaram todos os investimentos
em pesquisas, a maioria dos
laboratórios está sucateado.
Os outros laboratórios funcionam razoavelmente. Os mais
afetados são os das áreas tecnológicas, biológicas, de biomedicina e da saúde. A comunidade universitária, de 35
mil pessoas [professores, técnicos, estudantes e prestadores de serviço] sentem de alguma forma o caos provocado
pelos cortes orçamentários.
A Ufal e as outras 68 universidades federais enfrentam
momentos dramáticos, afirma a Associação Nacional dos
Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior.
Com os cortes de 18,16% no
orçamento discricionários, as
instituições adotaram econo-
Ufal teve cortes de R$ 160 milhões no orçamento, que permanece o mesmo desde 2012
mia de guerra. Entre as medidas, estão cortes ou retenção
das bolsas de 70 mil pesquisas, das quais mais de 2 mil
são de Alagoas.
A manutenção e os insumos necessários como reagentes são comprados com
cotação dolarizada e o orçamento que havia era do
tempo que o dólar custava R$
1,7 e hoje está mais de R$ 5.
Para piorar, não há mais previsão orçamentária. Isto acontece no momento em que as
universidades precisam investir nas pesquisas para enfrentar inclusive a pandemia do
coronavírus. Os coordenadores de cursos e de pesquisas
suspenderam novas investigações científicas e se queixam
da falta de recursos para aquisição de peças de reposição
importadas dos equipamentos dos parques tecnológicos
e laboratoriais.
Os órgãos financiadores
das pesquisas nas Universi-
Ufal começará
segundo semestre com menos
R$ 10 milhões
dades, como o Conselho Nacional de Pesquisa, Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico,
entre outros, também cortaram convênios e reduziram
investimentos. Segundo alunos e professores, “a ciência
regride lentamente junto com
o sucateamento das universidades”.
BRASÍLIA
O reitor Josealdo Tonholo passou a semana com o
“pires nas mãos” (expressão
para definir busca de recursos) em Brasília, peregrinando por ministérios e gabinetes parlamentares da bancada
federal de Alagoas. Ele busca
apoio para aprovação do orçamento suplementar das universidades federais, o que destinaria pelo menos mais R$
70 milhões para a Ufal. “As
universidades estão ativas e
as pesquisas fluem por causa
da pandemia do coronavírus.
É preciso recursos para mantê-las. Do contrário, vai parar
tudo”.
Ao definir a situação da
universidade, o reitor confirmou o orçamento discricionário de R$ 900 milhões, “é
o mesmo de 2011 e 2012 por
conta da inflação do período”.
O orçamento discricionário é
a soma dos recursos do cus-
teio, de pessoal e capital.
Na área de pessoal, a situação é melhor porque alguns
dos 3 mil professores estão recebendo precatórios e a universidade não pode interferir
nos salários assegurados por
legislação própria. Portanto,
não pode fazer cortes nos salários.
O segundo semestre começará com menos R$ 10 milhões de capital e R$ 42 milhões da verba de custeio. A
gestão teve de otimizar (cortar) mais pessoal terceirizado
da segurança e serviços gerais, revelou um dos gestores administrativos da Ufal.
O orçamento não contempla financiamento de pesquisa. Os recursos terão que vir
de agências financiadoras. O
próprio pesquisador vai buscar com os projetos. Um dos
exemplos é a mini usina geradora de energia solar fotovoltaica em construção na entrada principal do campus AC
Simões.
O coordenador do curso de
pós-graduação de engenharia da Ufal, professor Márcio
André, fez o projeto e conseguiu financiamento de R$
2 milhões junto à Eletrobras.
Do montante, 50% se destinam a construção física do
projeto e o restante financia
pesquisas e bolsas de estudos.
QUASE NÃO HÁ FINANCIAMENTO
PARA BOLSAS DE PÓS-GRADUAÇÃo
Praticamente não tem financiamento de atividade de
bolsas de pós-graduação. “A
redução de bolsas foi brutal. Situação tem origem na
conjuntura de desmonte das
pesquisas. O Brasil hoje tem
uma postura negacionista na
ciência e reduziu inclusive
os programas de financiamento do Ensino a Distância (EAD). Reduziu substancialmente os recursos para o
Programa de Apoio a pós-graduação (Proap) que banca-
vam reagentes, equipamentos
de apoio”, confirmou o reitor
Josealdo Tonholo.
Acrescentou que além do
corte orçamentário, a Universidade enfrenta o desmonte paralelo das atividades de
ciência e inovação tecnológica.
Para se ter ideia do volume
dos cortes federais: as universidades recebiam entre R$ 600
milhões e R$ 800 milhões/ano
só para investimento da CP
Infra, ou seja, para bancar a
infraestrutura das pesquisas
das 69 instituições. Com este
montante, se mantinha os
equipamentos dos laboratórios atualizados. Desde 2014,
ocorre redução dos recursos.
Nos últimos anos, nem o edital tem para infraestrutura de
pesquisa.
O último levantamento de
Alagoas foi feito em 2012, curiosamente pelo professor Josealdo Tonholo - hoje reitor.
Até aquele período, a Ufal recebia entre R$ 8 milhões e
R$12 milhões. Hoje, nada.
A situação compromete
todo o parque tecnológico.
“Estamos sem manutenção
até na tecnologia da Informação (T.I). Temos dificuldade de fazer armazenamento,
backup, estamos praticamente sem nobreack”.
O reitor lembrou que todas
as revistas de pesquisas assinadas pelo centro de pesquisas são eletrônicas e digitais.
AF
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fim de semana, 12 e 13 de junho DE 2021
ALTA DO DÓLAR PIORA SITUAÇÃO PARA
COMPRA DE INSUMOS PARA PESQUISAs
Com orçamento de R$ 900 milhões, Ufal precisa de mais R$ 70 milhões para fazer correção monetária
ARQUIVO GA
ARNALDO FERREIRA
REPÓRTER
O orçamento previsto para
a Ufal somava R$ 1 bilhão. De
capital e custeio a previsão era
de R$ 160 milhões para manter a expansão ocorrida nos
últimos anos e a correção monetária. O Ministério da Educação (MEC) liberou R$ 100
milhões para custeio e capital.
Outra coisa que preocupa
os gestores é com relação aos
insumos para os laboratórios
de tecnologia, para pesquisa
da biologia e para as clínicas
das áreas de saúde. Com a explosão da alta do dólar a situação está ficando insustentável.
“Qualquer atividade de
pesquisa em real é pelo quatro vezes mais cara do que
custava em 2012. Os reagentes
e quase tudo é dolarizado. O
prejuízo é muito maior que a
discussão dos cortes no orçamento”.
O Fundo Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
(FNCT) também contingenciou R$ 8 bilhões e isto significa
menos pesquisas no País.
UFAL “NÃO VAI FECHAR”
“A Ufal não vai fechar”, garantiu o reitor Josealdo Tonholo ao admitir, porém, que
muitos setores serão prejudi-
“A Ufal não vai fechar”, garante o reitor Josealdo Tonholo ao admitir, porém, que muitos setores serão prejudicados com os cortes de recursos no campus
cados.
“Temos setores que não
podem parar nunca. As pesquisas de cultivos laboratoriais, de campo, experimentos
não podem parar. Mas, o prejuízo acadêmico aumenta a
cada retrocesso.
O custo operacional subiu,
o orçamento numérico de
hoje é o mesmo de 2011 e não
é levado em conta a inflação, o
crescimento da universidade
e não tem sentido esta defasagem orçamentária brutal”, reclamou.
Com orçamento de R$ 900
milhões, a Ufal precisa de
mais R$ 70 milhões de reposição para atualização da correção monetária.
A maioria dos 102 cur-
sos termina este mês, remotamente, as aulas do primeiro
semestre de 2020. O segundo
semestre do ano passado também será ministrado este ano
remotamente.
PRESENCIAL
Aulas presenciais só nos setores essenciais como os laboratórios e estágios das áreas
de saúde e alguns tecnológicos. Ainda não há segurança
para aulas presenciais na Ufal,
afirmam os coordenadores de
curso que cobram a vacinação
da população.
Matrículas do Sisu 1 (um)
de 2021 estão em fase de
conclusão das 2,7 vagas.
Neste momento, a Universidade tem um edital para
preencher 3 mil vagas ociosas de alunos com processo
de transferência. Até agosto
preenche via o Enem 3 mil
vagas do Sisu 2 (dois)-2021.
A comunidade universitária é formada 3,7 mil docentes
e técnicos; 27 mil estudantes
com mais terceirizados e prestadores de serviços somam
mais de 35 mil pessoas.