Redação Pragmatismo
Saúde 03/Mar/2021 às 18:03 COMENTÁRIOS
Saúde

"Não podiam tocar no corpo dela", diz irmã de vítima da 'doença da urina preta'

Publicado em 03 Mar, 2021 às 18h03

Irmã da médica veterinária Priscyla Andrade, que morreu após contrair a "doença da urina preta", contou que comprou o peixe no mesmo local onde é cliente há 12 anos. Flávia Andrade também foi internada e disse que outras pessoas se sentiram mal. Ela pede mais estudos sobre a doença

Priscyla Andrade doença urina preta
Priscyla Andrade morreu nesta terça-feira (2)

A empresária Flávia Andrade, de 36 anos, revelou que a irmã Priscyla Andrade, de 31 anos, sentia muita dor a ponto de não aguentar que tocassem no corpo dela. A médica veterinária faleceu nesta terça-feira (2) vítima da Síndrome de Haff, popularmente conhecida como ‘doença da urina preta’.

Segundo a família, Priscyla ficou com os rins, fígado e pulmão comprometidos, além de apresentar problemas na musculatura.

“Quando a gente foi socorrer Pryscila, ela estava com fortes dores, não conseguia se mexer de tanta dor. Ela ficou paralisada porque não conseguia nem que tocasse nela. Eu também comecei a apresentar os sintomas, fiquei da nuca para o quadril paralisada com muita dor, eu não conseguia mais andar. Eu pensei que fosse um estresse devido à situação, por estar vendo minha irmã naquela situação”, contou Flávia em publicação nas redes sociais.

Flávia foi internada no dia 20 de fevereiro, quando foi visitar Priscyla na UTI e conversou com um médico. Ela se submeteu a exames e descobriu que estava com taxas no sangue alteradas. Flávia ficou quatro dias internada em um leito clínico. Ela afirmou que o diagnóstico de síndrome de Haff veio por acaso, pois o médico teria citado um caso parecido em outro paciente.

As irmãs se contaminaram após comerem um peixe da espécie arabaiana. O pescado foi comprado no bairro do Pina, na zona sul de Recife. Flávia disse que é cliente do local há 12 anos e os produtos sempre foram de qualidade. A empresária afirmou ainda que usou o peixe duas vezes em casa. A primeira vez no dia 12 de fevereiro, quando ela e as duas empregadas consumiram o alimento, e na segunda vez quando, além das três pessoas, o filho e a irmã Priscyla almoçaram na casa dela.

“No primeiro consumo, me senti mal, as empregadas também se sentiram mal, mas a gente confundiu com dor de coluna, dor de estômago, dor abdominal. No segundo consumo, além de mim, e das secretárias, meu filho e minha irmã Priscyla consumiram o peixe. Meu filho teve diarreia e as secretárias ficaram com dor nas costas. Eu senti dores no corpo, enjoo, diarreia, e minha irmã ficou com muita dor e falta de ar. Ela ficou com o fígado, os rins e o pulmão com problemas”, relatou Flávia.

“O meu apelo é para que tenham mais estudos sobre essa doença. O diagnóstico dela foi por acaso. Não há como saber se o peixe está contaminado. Não tem cheiro diferente, sabor diferente, nada”, concluiu.

Doença da urina preta

Rara, a doença de Haff é ocasionada pela presença de uma toxina biológica de algas que são ingeridas por peixes. A substância ataca a musculatura e os rins, deixando a urina escura, segundo o médico infectologista e professor da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), Fernando Maia.

“Ela pode causar lesão renal importante, algumas pessoas ficam com urina escura, há pessoas ainda que fazem lesão renal a ponto de precisar de diálise”, explicou o médico infectologista.

Maia afirmou que com a descoberta deste caso, a população de Pernambuco e Alagoas, por serem estados vizinhos, devem evitar o consumo de peixe neste período até que a situação seja normalizada, pois não há como saber se o pescado está contaminado ou não.

Já o biólogo Cláudio Sampaio explicou que não é possível reconhecer se o peixe está contaminado e destaca que a toxina não está presente apenas na espécie arabaiana, conhecida também como olho de boi. Ele disse que a toxina vai se acumulando ao longo da cadeia alimentar de espécies aquáticas.

“Essa toxina não é muito conhecida, acredita-se que ela entre na cadeia alimentar através da ingestão de peixes que filtram microalgas que produzem essa toxina. Uma sardinha se alimenta dessa microalga, essa sardinha é consumida pelo chicharro, que acumula, que é consumida pelo olho de boi (arabaiana) e que atinge uma grande quantidade de toxina”, disse Sampaio, que é professor dos cursos de biologia e engenharia de pesca e coordenador do Laboratório de Ictiologia e Conservação campus Penedo da UFAL.

Como tratar?

Um dos sintomas Síndrome de Haff, a urina escurecida é uma consequência da liberação de uma substância chamada miogobina no corpo. Essa proteína, tóxica para os rins, é liberada pelo próprio organismo, com a necrose muscular – outro sintoma provocado pela Síndrome.

“Quando ocorre a necrose muscular, existe uma proteína chamada mioglobina que tem uma cor escura e acaba passando para a urina. Os sintomas da síndrome acabam sendo decorrentes da necrose muscular”, disse o infectologista Paulo Olzon.

O primeiro passo para tratar a doença, segundo o infectologista, é a hidratação em casa. “É importante procurar se hidratar e procurar atendimento médico assim que os sintomas aparecerem”.

No hospital, o aumento da enzima CPK é um fator associado à doença, que pode facilitar o diagnóstico do paciente. “A degradação muscular também aumenta a presença dessa enzima. Isso serve de orientação para o diagnóstico e também para a alta”, disse.

Além da hidratação, o tratamento também é feito com analgésicos, de acordo com os sintomas apresentados. “O tempo de cura é extremamente variável. Vai depender da intensidade da doença para poder traçar um relatório. Crianças, adultos e idosos podem ser acometidos da mesma forma”.

Siga-nos no InstagramTwitter | Facebook

Recomendações

COMENTÁRIOS